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Se eu tivesse uma piscina e nenhum material que conduta adotaria?



O fisioterapeuta possui vários recursos que podem aperfeiçoar a sua intervenção diante de determinada situação clínica e clientela. No entanto, ter os recursos não significa que tratará o paciente de maneira eficiente.

Ter uma piscina como recurso terapêutico e não ter materiais de apoio não limitará o fisioterapeuta a realizar seu trabalho. Porém, se o profissional não estiver preparado para tal situação, pode simplesmente fazer uma sessão de fisioterapia “molhada”.

Assim, antes de entrar com o paciente na piscina é essencial que o profissional tenha uma PERGUNTA CLÍNICA que o provoque a identificar qual será sua estratégia de tratamento. Para isso, a pergunta deve ser bem definida com base na avaliação prévia e no objetivo funcional proposto, especificando a situação clínica do indivíduo, as alternativas de intervenção e os desfechos clínicos de interesse. Esta metodologia de trabalho chama-se prática baseada em evidência (PBE) e proporciona condições de fundamentação na prática clínica, pois leva em conta a evidência científica da melhor qualidade, integrada com a experiência e capacidade de julgamento do profissional.

Diante do questionamento: “Se eu tivesse uma piscina e nenhum material, que conduta adotaria?”, meu primeiro pensamento foi: Quem é o meu paciente? Qual a sua situação clínica? Quais as alternativas de intervenção? O que a piscina pode oferecer? Qual o desfecho clínico de interesse (objetivo funcional)?

A fim de aumentar o desempenho na marcha de domiciliar para comunitária (ex: escola pública regular – distância de 1 km) em relação à resistência, de um paciente de quinze anos de idade com paralisia cerebral do tipo diparética (queixa: cansaço ao andar), a pergunta clínica foi: A piscina é efetiva no treinamento aeróbico em pacientes com paralisia cerebral?

Diante disso, fui buscar na literatura se haveria algum estudo que pudesse me ajudar na construção da conduta terapêutica. Embasada teoricamente, terei condições de criar exercícios no meio aquático, tendo a água como único recurso terapêutico. Com base na revisão de Rogers et al., (2008) segue os meus comentários:

Na metodologia da revisão, a variável independente considerada foi o exercício aeróbico. Esta foi definida como todo exercício que aumente ou altere a frequência cardíaca gerando mudanças no estado fisiológico do indivíduo. Consideraram-se os estudos que tinham amostra de crianças nas idades de 2 a 17 anos com gravidades variadas. Os anos de busca considerados foram de 1960 a 2006 e os descritores foram: ‘cerebral palsy’, ‘athetoid’, ‘ataxic’, ‘spastic diplegia’, ‘hemiplegia’, and ‘quadriplegia’; ‘aerobic’, ‘exercise’, ‘training’, ‘physical activity’, ‘aquatic ⁄water ⁄ pool therapy’, and ‘continuous exercise’. A variável resposta foi de acordo com a Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF) e as evidências em relação ao rigor da metodologia dos trabalhos foram de acordo com a American Academy for Cerebral Palsy and Developmental Medicines (AACPDM).

Em relação aos resultados desta revisão, pode-se perceber que nos estudos selecionados a variável independente (exercício aeróbico) foi operacionalizada por meio da verificação do consumo de oxigênio e suas relações em testes máximos e submáximos e a variável resposta (CIF) restringiu-se a estrutura e função do corpo, operacionalizada por medidas antropométricas. Além disso, os estudos não delimitaram taxas para trabalhar os pacientes e não reportaram complicações ou efeitos adversos em relação ao treino aeróbico. Apesar dos estudos mostrarem evidências de mudanças fisiológicas em pacientes com paralisia cerebral após o treino aeróbico, ou seja, serem estatisticamente significantes, eles não tiveram magnitude, ou seja, não foram clinicamente relevantes. O que isso quer dizer? Devido à heterogeneidade das amostras tanto em relação a quantidade, a gravidade dos tipos de paralisia cerebral e a faixa etária, não foi possível identificar o treino aeróbico mais efetivo com relação a segurança e o benefício. As intervenções mais específicas como natação, corrida e bicicleta apresentaram melhor resultado, no entanto, os estudos abordaram diferentes parâmetros de duração, intensidade e ritmo, não delimitando pontos de corte de segurança para este tipo de treino. A revisão aponta a necessidade de estudos futuros que trabalhem parâmetros fisiológicos e metas funcionais em grupos homogêneos.

Contudo, apesar do artigo não responder a minha pergunta, percebe-se a importância de: ao identificar um objetivo de tratamento é necessário delimitar quais serão as variáveis independentes e dependentes e como elas serão operacionalizadas. Ou seja, no meu caso, a variável independente pode ser: frequência cardíaca e a variável resposta: a velocidade da marcha. A frequência cardíaca poderá ser operacionalizada por meio do frequencímetro durante a atividade terapêutica realizada e a velocidade da marcha poderá ser operacionalizada por meio do teste de caminhada de 6 minutos. A conduta terapêutica: caminhadas no meio aquático em diferentes profundidades.

Apesar da limitação dos estudos da revisão em definir parâmetros fisiológicos para um treino aeróbico em pacientes com paralisia cerebral, a experiência do profissional integrada com conhecimento teórico, contribuirá para a tomada de decisão mais adequada.

Referência:

Rogers A; Furler BL; Brinks S; Darrah J. A systematic review of the effectiveness of aerobic exercise interventions for children with cerebral palsy: an AACPDM evidence report. Developmental Medicine & Child Neurology, v. 50. P. 808–814. 2008.
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